O fim se dá para aqueles que não sabem o que é o amor
Posted by Yuri | Posted in | Posted on 14:23
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Motivo de muita felicidade e descontração. Era desse modo que via minha vó. Desde pequeno enquanto ela intercalava os finais de semana na casa dos meus pais e no meu tio, contava as horas para que minha vó chegasse. Sempre vinha com um pacote de balas, um salgadinho, e aquele amor materno. No decorrer da minha infância, vivíamos como unha e carne. Acompanhava-a para ir ao supermercado, onde sempre trazia algumas “guloseimas” para agradar seus netos. Quando tinha corrida de fórmula-1, ela assistia comigo, ou quando estava dormindo, eu fazia tudo bem quietinho para não acordá-la. Verão era sinônimo de dois meses com a vó na praia. Gritava na beira do mar, para não irmos tão fundo, dizia “sim” para muitas coisas, e sabia dizer “não” quando cabível. Foi conselheira, amiga, irmã, mãe e pai. Era a razão de estar num ambiente agradável. Quando chegavam as festas comemorativas de final de ano, lá estava ela, cantando, rindo e poucas vezes chorando de emoção.
Uma das passagens que mais me emocionou, e que para você pode ser exagero, foi quando pela primeira vez na sua vida, aos 80 anos, ganhou uma boneca de brinquedo. Para quem não sabe, minha vó foi registrada em Pelotas, e desde pequena trabalhou no campo. Não teve acesso a escola e quando adolescente migrou para cidade grande com o sonho de mudar de vida. Na peleia do dia-a-dia, sempre conquistou tudo com muito suor, e apesar de trabalhar mais de 40 anos, num escritório de contabilidade em Porto Alegre como auxiliar de escritório, conseguiu comprar seu apartamento, fazer ranchos, e dar sempre os melhores presentes, enfim, deu sempre o do bom e do melhor. Porém, nunca soube o que se passava naquele coração, que tipo de sentimentos havia escondido, e que sonho gostaria de realizar ainda em vida. Mas foi nesse relato comemorativo dos seus 80 anos, que uma simples boneca desencadeou um choro sem fim. Prestei muita atenção na emoção em que ela sentiu ao abraçar aquele ingênuo objeto, acredito que deva ter passado um filme na sua trajetória até então. Com isso, chorei mais do que ela, trancado no meu quarto.
Nos últimos anos de sua vida, aqui em casa, me atirava na sua cama, e dizia que a amava. Ela me olhava e não dizia nada, mas pra mim já dizia tudo. Enquanto ela assistia aos jogos do seu idolatrado Internacional, eu acompanhava o jogo ao seu lado, secando e torcendo por seu time perder. Ela cruzada os dedos e falava silenciosamente “vai, vai, vai”. Entendia mais de futebol do que qualquer um aqui em casa, e uma das passagens que acho mais engraçado, era quando ela gritava “VERDÃO”. Apelido dado ao Palmeiras, depois da eliminação do Grêmio em 96.
Quero concluir o texto de hoje, dizendo que a vó Zulma foi uma mulher indispensável na minha vida, e sei que ela está num lugar muito bonito, por que as pessoas que a conheciam a amavam. Por isso, deixará saudades nos finais de semana, onde não terão mais os latidos dos cachorros anunciando sua chegada, não terão os pacotes de bala e nem os passeios no supermercado.
Vó, agora sim, para encerrar, gostaria de dizer que te amo e que sempre vou te amar. Pois daqui, rezarei e lembrarei os momentos que vivemos juntos. Uma coisa é certa.
O fim se dá para aqueles que não sabem o que é o amor.

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